quarta-feira, 23 de junho de 2010
Carta do Papa aos artistas
(João Paulo II) 1999
A todos aqueles que apaixonadamente procuram novas “epifanias” da beleza para oferecê-las ao mundo como criação astística.
“Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa” (Genesis 1,31)
• O Artista, imagem de Deus Criador
Ninguém melhor do que vós, artista, construtores geniais da beleza, pode intuir algo daquele fato com que Deus, na aurora da criação, contemplou a obra de suas mãos. Infinitas vezes se espelhou um relance daquele sentimento no olhar com que vós – como, aliás, os artistas de todo os tempos, maravilhados com o arcano poder dos sons e das palavras, das cores e das formas, vos pusestes a admirar a obra nascida do vosso genio artístico, quase sentido o eco daquele mistério da criação a que Deus, único criador de toda as coisas, de algum modo vos quis associar.
Pareceu-me, por isso, que não havia palavras mais apropriadas do que as do livro do Genesis para começar esta minha Carta para vós, a quem me sinto ligado por experiência dos meus tempos passados e que marcaram indelevelmente a minha vida. Ao escrever-vos, desejo dar continuidade aquele fecundo diálogo da Igreja com os artistas que, em dois mil anos de história, nunca se interrompeu e se prevê ainda rico de futuro no limiar do terceiro milênio.
Quanto mais consciente está o artista do “dom” que possui, tanto mais se sente impelido a olhar para si mesmo e para a criação inteira com olhos capazes de contemplar e agradecer, elevando a Deus os seu hino de louvor. Só assim é que ele pode compreender-se profundamente a si mesmo e à sua vocação e missão.
• A vocação especial do artista
Nem todos são chamdos a ser artistas, no sentido específico do termo. Mas, segundo a expressão do Genesis, todo o homem recebeu a tarefa de ser artífice da própria vida: de certa forma, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra-prima.
“A nossa única arte é a fé, e Cristo é nosso canto”
Através das obras realizadas, o artista fala e comunica com os outros. Por isso, a História da Arte falam dos seus autores, dão a conhecer a seu intimo e revela, o contributo original que eles oferecem à história da cultura.
• A vocação artística ao serviço da beleza
O tema da beleza é qualificante, ao falar de arte. Ao pôr em relevo que tudo o que tinha criado era bom, Deus viu também que era belo.
• O artista e o bem comum
De fato, a sociedade tem necessidade de artista.
A vocação diferente de cada artista, ao mesmo tempo que determina o âmbito do seu serviço, indica também as tarefas que deve assumir, o trabalho duro a que tem de sujeitar-se, a responsabilidade que deve atuar sem deixar-se dominar pela busca duma glória efêmera ou pela ânsia de uma popularidade fácil, e menos ainda pelo cálculo do possível ganho pessoal.
Assim comenta Macário, o Grande, a beleza transfigurante a libertadora que erradia do Ressuscitado: “A alma que foi plenamente iluminada pela beleza inexprimível da glória luminosa do rosto de Cristo, fica cheia do Espirito Santo... é toda olhos, toda luz, toda rosto.”
• O caminho de um renovado diálogo
Vós sabeis que a igreja continuou a nutrir grande apreço pelo valor da arte enquanto tal. Enquanto busca do belo, fruto duma imaginação que voa mais acima do dia-a-dia, a arte é, por sua natureza, uma espécie de apelo ao Mistério. Mesmo quando perscruta as profundezas mais obscuras da alma ou os aspectos mais desconcertantes do mal, o artista torna-se de qualquer modo, voz da esperança universal de redenção.
• No espírito do Concílio Vaticano II
Na Constituição Pastoral Gaudium et spes, os Padres Conciliares sublinharam a grande importância da literatura e das artes na vida do homem: Elas procuram dar expressão à natureza do homem, aos seus problemas e a experiência da suas tentativas para conhecer-se e aperfeiçoar-se a si mesmo e ao mundo; e tentam identificar a sua situação na historia e no universo, dar a conhecer as suas misérias e alegrias, necessidades e energias, e desvendar um futuro melhor.
Baseados nisto, os Padres, no final do Concílio, dirigiram aos artistas uma saudação e um apelo nestes termos: “O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero”. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração.
• A Igreja precisa da arte
Para transmitir a mensagem que Cristo lhe confiou, a Igreja tem necessidade da arte. Ora, a arte possui uma capacidade muito propria de captar os diversos aspectos da mensagem, traduzindo-os em cores, formas, sons que estimulam a intuição de que os vê e ouve.
A Igreja tem igualmente necessidade dos músicos. Crente sem número alimenteram a sua fé com as melodias nascidas do coração de outro crentes, que se tornaram parte da liturgia ou apelo menos uma ajuda muito válida para a sua decorosa realização. No cântico, a fé é sentida como uma exuberância de alegria, de amor, de segura esperança da intervenção salvífica de Deus.
• A arte precisa da Igreja?
A verdade é que o cristianismo, em virtude do dogma central da encarnação do Verbo de Deus, oferece ao artista um horizonte particularmente rico de motivos de inspiração. Que grande empobrecimento seria para a arte o abandono desse manancial inexaurível que é o Evangelho!
• Apelo aos artistas
Com esta Carta dirigi-me a vós, artistas do mundo inteiro, para vos confirmar a minha estima e contribuir para o restabelecimento duma cooperação mais profícia entre a arte e a Igreja.
Convido-vos a descobrir a profundeza da dimensão espiritual e religiosa que sempre caracterizou a arte nas suas formas expressivas mais nobres. Nesta perspectiva, faço-vos um apelo a vós, artistas da palavras escrita e oral, do teatro e da música, das artes plásticas e das mais modernas tecnologias de comunicação. Este apelo dirigo-o de modo especial a vós, artistas cristãos: a cada um queria recordar que a aliança que sempre vigorou entre Evangelho e arte, independentemente das exigências funcionais, implica o convite a penetrar, pela intuição criativa, no mistério de Deus encarnado e contemporaneamente no mistério do homem.
• Espírito Criador e inspiração artística
Ao Espírito Santo, “o Sopro”, acena já o livro do Genesis: “A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas.” Existe grande afinidade lexical entre “sopro expiração e inspiração.” O Espírito é o misterioso artista do universo. Na perspectiva do terceiro milênio, faço votos de que todos os artista possam receber em abundância o dom daquelas inspirações criativas donde tem início toda a autêntica obra de arte.
• A “beleza” que salva
Já no limiar do terceiro milênio, desejo a todos vós, artistas carissimos, que sejais abençoados, com particular intensidade, por essas inspirações criativas.
Acompanhe-vos a Virgem Santa, a “toda bela”, cujo efígie inumeráveis artista deliniaram e o grande Dante contempla nos esplendores do Paraíso com “beleza, que a alegria era os olhos de todos os outros Santos.”
Com os meus votos mais cordiais!
Vaticano, 04 de abril de 1999, Solenidade da Páscoa da Ressurreição
creditos da Marcia Rodrigues por selecionar e resumir o texto para ser a primeira postagem do blog
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